segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Pós Amigo Secreto

- Está tendo um burburinho por aí dizendo que a culpa pelo cancelamento do amigo secreto foi sua...

- Minha?

- É.

- Olha Cleide, eu não fiz nada. Eu sou sempre o culpado de toda e qualquer coisa que...

- Walter, pára de te fazer de vítima, sim?

- Como é?

- Te fazer de vítima, tu sempre te refere a ti mesmo de uma maneira que a pessoa tenha obrigação de sentir pena de ti e...

- Ahhh pára Cleide tu sabe bem que é sempre assim. O Amaral esquece de comprar tonner a culpa é do Walter, a Dona Nadir faz o café ruim, ela deve ter passado nas cue...

- Walter, chega. Eu disse que tem um burburinho, não quer dizer que seja verdade.

- E qual a diferença?

- Qual a diferença de que?

- Entre burburinho e verdade.

- Bruburinho é fofoca, coisa que os outros inventam e...

- Isso eu sei, Cleide, ta insinuando que eu...

- Não estou insinuando nada, Walter, tu é muito cheio dos não-me-toques, não se pode falar nada e tu já acha que o mundo virou as costas pra ti...

- E não é verdade? Tudo que acontece nessa droga de escritório é culpa minha, se começa a chover em São Paulo a...

- Já sei, já sei... a culpa é do Walter. E daí?

- Como e daí, tu não acha que é responsabilidade demais para uma pessoa só?

- Acho que tu ta desvirtuando demais o assunto, te chamei para almoçar comigo para...

- Já sei, para me dizer o quanto sou cagado e que tenho uma vida de...

- Esquece, Walter...

- Não Cleide, agora fala.

- Não, deixa pra lá. Acho que a gente tem é que procurar saber quem é que começou essa história de que...

- Que se foda o amigo secreto, agora eu quero saber o que tu ia dizer.

- Já disse que não era nada...

- Fala logo, caralho.

- Sempre que tu fica nervoso, tu desata a falar bandalheiras é?

- Falar o que?

- Bandalheiras, esse teu palavreado chulo.

- Ah tá. As vezes, depende da situação.

- E que situação é essa?

- Qual delas?

- Como assim qual delas, a que a gente ta conversando desde que sentou aqui para almoçar.

- Ta, mas tem a história do amigo secreto e a do que eu deixei de te dizer.

- Ahhhhnnnn sim... as duas.

- Ah.

- Então... eu quero muito saber o que tu ia me dizer.

- E eu quero muito saber quem foi que começou aquele burburinho no escritório falando de ti.

- Porque? A chacota toda é comigo, não contigo.

- Ah, tu sabe... Fica aquele climão no escritório e daí surgem os apelidos e...

- E?

- E eu acho que não é legal isso. Um apelido de acordo com o nome da pessoa tudo bem, até soa de forma carinhosa, mas inventar algo depreciativo é ser infantil demais.

- Pode me chamar de Wal.

- Como?

- Wal, meu apelido fora do escritório.

- Eu entendi, só não entendi porque eu te chamaria assim, somos apenas colegas e...

- Tu mesma que disse isso Clê, é uma forma mais cari...

- Peralá, que história é essa de Clê?

- É o que eu tentava te dizer antes de tu me interromper, é uma forma mais carinhosa, a gente pode se conhecer fora daquele lugar hostil.

- Melhor não.

- Porque? Tu é casada? Namora? Ta enrolada?

- Não é isso.

- Então...?

- Eu simplesmente não quero.

- Não quer?

- É, não quero. Fazer amizade com pessoal do trabalho é ter um infinito Happy Hour.

- Como assim?

- Os assuntos são sempre os mesmos. Falar mal do chefe, comentar dos estagiários, reclamar do salário, etc.

- Ok... então voltemos a vaca frita.

- Vaca fria.

- Como?

- É vaca fria que se diz... mas prossiga.

- Então... acho que o problema todo de seu por causa dos sanduíches de pernil.

- Os sanduíches?

- Sim, os sanduíches. Lembra da confusão que toda a comunidade judaica do escritório fez quando tu anuncinou que o cardápio seria composto deles?

- Até que faz sentido... Mas eu ainda acho que o problema são com os refrigerantes.

- Os refrigerantes? Mas o mundo todo gosta de Coca Cola...

- Não a Coca Cola, o tal de Guaraná Antuérpia ou o Raudê Cola.

- Bwahahhahaha...

- Não entendi o motivo da garagalhada.

- Só tu mesma Cleide, para acreditar que existissem estes refrigerantes...

- Ainda assim, foi uma brincadeira muito da sem graça. E tu, ainda te fez de bobo quando me deram teu telefone para saber das marcas

- Verdade, foi um pouco cretino da minha parte. Mas eu ainda acho que os sanduíches de pernil foram os semeadores da discórdia.

- Talvez.

- É, talvez.

- Escuta Walter, vamos pedir esse almoço logo? Estou ficando com fome e essa nossa conversa não vai chegar a lugar nenhum.

- Verdade... Deixa que eu chamo o garçom. Mas peraí um pouquinho... O que tu ia me falar antes e não disse?

- Nada, já te disse.

- Nada o caramba... Fala aí, ta só a gente aqui.

- Ta bem, eu falo.

- Então fala.

- Posso acender um cigarro antes?

- Estamos na área de fumantes?

- Sim.

- Então tudo bem.

- É que a diretoria me mandou almoçar contigo para...

- Para o que? Fala logo...

- Calma, homem. Para tentar descobrir se era tu que estava envolvido com aquele desvio de verba.

- Desvio de verba? Que desvio? Que verba? O que me interessa para onde é destinada ou não alguma verba quando está o escritório todo conspirando contra mim? Só porque eu trabalho com a contabilidade e...

- Esquece Walter, eu esqueci que tu era a escória da humanidade, a personificação de tudo que há de mal ou ruim no mundo, por isso eu nem queria falar nada.

- Sei, sei... Mas vamos chamar o garçom?

- Vamos. Aliás, tu chama, eu ainda estou fumando.

- Ok. Hey, garçom, chefia... chega aqui um poquinho...

---

Agradecimento especial e dedicação deste texto ao amigo Rob Gordon (até mesmo porque sem ele, este texto nunca teria sido possível), que de tanto ler suas crônicas, sinto como se já fossemos amigos de longos anos. E se você conseguiu chegar até aqui, foi aqui que essa história toda começou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário